FRAGMENTOS DE UMA PESSOA COM TRANSTORNO AFETIVO BIPOLAR

Entre a intensidade de viver e o vazio da existência.

Escrevo este livro a partir de um lugar que me atravessa todos os dias: sou uma pessoa com transtorno bipolar e ansiedade generalizada.

Durante muito tempo, tentei nomear o que sentia, organizar os excessos, entender os vazios. Só anos depois do diagnóstico — e a partir do encontro entre a escrita e a psicoterapia — é que minha ficha, de fato, caiu.

Este livro nasce desse processo: de me olhar sem fuga, de me reconhecer nos ciclos e de aprender, pouco a pouco, a me respeitar.

Fragmentos de uma pessoa com transtorno afetivo bipolar (TAB) não é um manual, nem uma promessa de superação. É um conjunto de pedaços honestos de quem vive entre a intensidade de sentir e o vazio da existência.

Jodeylson Islony de Lima Sobrinho

Sou doutor em Serviço Social, professor universitário e pesquisador.

Minha trajetória profissional sempre esteve ligada à defesa dos direitos sociais, à formação humana e ao compromisso ético-político com a classe trabalhadora.

Atuei na política de assistência social, na gestão acadêmica e na universidade.

Mas aqui, mais do que o profissional, escrevo como alguém que sente, que cai, que se recompõe e que segue tentando existir com dignidade em meio às oscilações da mente.

Também escrevo como pai.
Ser pai de Arissa me ensinou que cuidar de mim não é egoísmo — é responsabilidade. Há dias em que a força vem dela, da vontade de estar presente, de seguir apesar do cansaço, de encontrar sentido mesmo quando o mundo interno se fecha.

Um fragmento para você sentir — e então decidir caminhar por estas páginas.


FRAGMENTO: O SILÊNCIO ENTRE AS COISAS

Às vezes eu fico só observando.
O tudo e o nada.
O movimento e o silêncio.
As pessoas que passam, o vento que toca, o tempo que corre e, de repente, parece parar.
Olho o mundo e me vejo nele, mas ao mesmo tempo me perco — entre o real e o que só existe dentro de mim.
Há dias em que o vazio tem forma, cheiro e cor.
Ele se senta comigo, ocupa espaço e respira perto.
Fico tentando entender o que sou nesse instante:
observador ou parte do que estou observando?
vida ou apenas lembrança dela?
O pensamento corre, e numa ventania, me carrega pra longe.
E quanto mais penso, mais o silêncio se amplia.
É como se eu estivesse inteiro e, ao mesmo tempo, dissolvido no ar, no tempo, no nada.
Nesses momentos, percebo que existir também é se perder um pouco —
é aceitar que há lugares dentro de mim que não precisam de resposta,
apenas de respiro.

Jodeylson Islony

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